Concepção, características e conteúdo
Originalmente intitulado “Atrás do pensamento: monólogo com a vida” e depois “Objeto gritante”, propunha-se a transcender as fronteiras da literatura com enxertos de fragmentos jornalísticos e autobiográficos, gerando uma heterogeneidade de temas, estilos de linguagem e gêneros narrativos. Após três anos de revisões, transformações e considerável redução (originalmente eram 200 páginas de manuscritos), a obra ganha novas características e é publicada, em 1973, pela editora Arte Nova, sob novo título: Água viva.
Pode-se suspeitar que o título “Água Viva” faça alusão a uma técnica literária modernista, o fluxo da consciência , da qual se serve Clarice. O estilo, consagrado por James Joyce (Ulysses , 1922) e Virginia Woolf (Mrs Dalloway, 1925), propõe-se a enunciar o fluxo contínuo de pensamentos, tal como ocorre no íntimo; ainda que aparentemente desordenado, gera raciocínio lógico.
Assim Clarice o faz. Seu texto, apesar de manifestar-se num grande mosaico de pequenas peças individuais – superficiais e profundas, emulam um todo harmônico e tridimensional onde o tema é vivo; multifacetado, mutante. O enredo de Água Viva é virtual e captado como numa ilusão de ótica, onde o que se vê com atenção é diverso do que o que se vê de relance ou em estado de acuidade abstraída.
Em primeira pessoa, o eu-lírico anônimo de Água Viva é feminino e, portanto, confunde-se com a própria identidade da autora [Clarice], conferindo um tom autobiográfico à obra. No entanto, revela-se ainda nas primeiras páginas como um “eu” impessoal , cósmico , representando todos e/ou ninguém. Esse “eu” parece redigir uma carta. O destinatário, também anônimo, figura-se no “você que me lê” e, pelas últimas páginas, se manifesta num vocativo curioso: realidade. Desta forma, uma única frase parece sintetizar a matéria de Água Viva: “
Esta é a vida vista pela vida”.
Duas veias temáticas pulsam em Água Viva: o tempo e o ser.
A efemeridade do momento presente, nomeado “instante-já”, revela-se grande angústia. O eu-lírico busca uma quarta dimensão, isto é, capturar o agora em sua integralidade, desgarrá-lo da corrente do tempo e manuseá-lo enquanto elo individual. Tal dimensão só poderia ser alcançada através da palavra que, enquanto objeto, é capaz de perpetuar o momento . Paradoxalmente, a perpetuação, intimamente ligada ao tempo, é questionada quando a própria existência do tempo é posta em cheque.
O pensamento, enquanto “invisível núcleo da realidade”, é inventado, e representa uma inconsciência racional-discursiva denominada “it”, um estado-lugar puro, espontâneo e involuntário. Tal dimensão se encontraria atrás do pensamento. Por vezes, “atrás do atrás do pensamento” e é experimentada por recém-nascidos, por exemplo. A angústia do eu-lírico se revela na quase impossibilidade de experimentar o “it” voluntariamente. Para tal, o leitor é convidado a parar de raciocinar, o que é considerado “terrivelmente difícil”.
Pôr em palavras o inefável se torna uma traição necessária e Clarice Lispector habilmente oferece o irracional por meio de inúmeras digressões, que induzem o leitor à proposta dimensão “it”. A autora enxerta trechos narrativos envolvendo lembranças, experiências, desejos, novas histórias, uma cantiga de roda, uma citação bíblica, descrição de espécies de flores, entre outros, ligando-os através de uma lógica esquizofrênica . Diante do que é proposto no conteúdo da obra, percebe-se que a autora não pretende, de fato, estabelecer um enredo à partir do texto concreto. O tema é vislumbrado na abstração gerada no atrito e no vazio entre os enxertos narrativos , de onde se estimula uma prática máxima da subjetividade .
Dentre os motivos que compõem a afinidade entre os diversos segmentos do texto, destacam-se proposições metafísicas sobre o infinito, a morte , Deus, o entre-lugar, o involuntário, o insconsciente , o invisível, a atemporalidade, a insanidade, o inesperado , o nada enquanto entidade, o impossível. À moda socrática, a narradora assume suas incertezas.
Gênero e canonicidade
Embora comumente classificado como “romance” , o relato intimista de Água Viva - isento de tramas, enredo, personagens, eventos e cenário - confere à obra um status inclassificável de gênero , por vezes denominado “ficção” ou “fluxo da consciência”. A própria narradora não esconde sua malícia:
“Este não é um livro porque não é assim que se escreve. (…) Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais.”
A canonicidade de Água Viva estaria ligada primeiramente à já estabelecida canonicidade e/ou popularidade da autora aquando da publicação da obra em questão. Ademais, sua consagração lhe é emprestada pelo arremedamento de uma técnica narrativa glorificada internacionalmente, o fluxo da consciência, até então não autenticada em língua portuguesa. Adicionalmente, poderia-se mencionar a publicação, no Jornal do Brasil, de um texto apreciativo do renomado jornalista Alberto Dines , agindo como instância legitimadora da qualidade de Água Viva e impulsionando a sua circulação na indústria cultural.
Curiosamente, hoje, maio de 2008, o livro não se encontra disponível nas livrarias. Estaria enfraquecida a sua presença no cânone literário brasileiro? Será que seu estilo subjetivo e hermético não estaria contribuindo para a lucratividade no mercado cultural, cujo público é cada vez mais materialista e consumidor de descartáveis? O tempo dirá.
Desfecho – sinopse em metáforas
A consciência, o ser e o agora não se delimitam em lugar algum. Não se os vê. Não se os prendre. Diante de tal angústia, Clarice Lispector se propõe a apalpar o subjetivo, dar-lhe forma sem, contudo, demarcá-lo. Como uma pintura abstrata, desprovida de figura concreta, Água Viva é um quadro do nada circunscrito no tudo. É um caco de espelho que, ele só, ainda que caco, abarca o infinito. É um trecho de ar que, sem extremidades, cima e baixo, começo e fim, é o ar integralmente. É o ser, o estar, o turbilhão do agora materializado em jorro de palavras. O preto das letras no branco do papel imprimindo a essência inefável da massa cinzenta. Um deleite em nuances de cor desconhecida. O invisível fotografado em excepcional dimensão: O textº sentido.
* Omiti as 24 notas de rodapé